Chega a casa, pousa o saco no chão e repara que a sola do sapato abriu uma racha comprida, mesmo na zona onde o pé dobra. É aquele momento em que dá vontade de escrever “claro! por favor, envie o texto que deseja traduzir.” como se fosse um pedido automático de socorro - e o “claro! por favor, envie-me o texto que deseja traduzir.” aparece na cabeça como eco, a pedir mais detalhes. Só que aqui o “texto” é a tua sola, e quanto mais cedo intervires, maior a probabilidade de a salvares sem teres de trocar já de par.
A boa notícia: há um truque muito simples de sapateiro que funciona especialmente bem quando a racha ainda não “comeu” a sola toda e o material ainda está firme.
O que está realmente a acontecer quando a sola racha
Nem todas as rachas são iguais. Às vezes é só uma fissura superficial; noutras, é uma abertura que já está a separar a sola em duas “lâminas”, pronta a descolar ao primeiro dia de chuva.
Em geral, a sola racha por um destes motivos:
- Flexão repetida na zona da frente do pé (a “dobradiça” natural do sapato).
- Ressecamento por calor, sol, armazenamento longo ou limpeza agressiva.
- Material a degradar-se (muito comum em algumas solas de poliuretano que envelhecem e esfarelam).
- Descolagem interna: a racha começa por fora, mas o problema é a falta de aderência por dentro.
Se a sola estiver a esfarelar como bolacha, não é “reparação”, é fim de vida do material. Aí o melhor é mesmo sapateiro para substituição de sola.
A dica prática do sapateiro: cola de contacto + “fechar e prensar”
O erro mais comum é pingar supercola em cima, calçar logo a seguir e esperar milagres. A supercola endurece rápido, mas não gosta de flexão contínua e pode falhar precisamente onde o sapato dobra.
O método de sapateiro para rachas é simples: preparar, colar com cola de contacto e prensar. A diferença está na preparação e no tempo de espera.
O que vais precisar (sem complicações)
- Cola de contacto (cola de sapateiro/neoprene; idealmente flexível)
- Lixa média (120–180) ou uma lima
- Álcool isopropílico (ou álcool etílico) e um pano
- Palitos/cotonetes para aplicar cola dentro da racha
- Fita adesiva forte ou sargentos/molas para prensar
- (Opcional) borracha líquida / massa flexível para acabamento exterior
Passo a passo (10 minutos de trabalho, mais tempo de cura)
Limpa bem a zona.
Retira pó, lama e gordura. Passa um pano com álcool e deixa secar 1–2 minutos.Abre a racha com cuidado e lixa por dentro.
O objetivo não é “comer” material: é criar rugosidade para a cola agarrar. Se não conseguires lixar dentro, lixa ligeiramente as bordas e a superfície próxima.Remove o pó da lixagem.
Um pano seco ou ar (até um secador em frio) ajuda. Se fica pó lá dentro, a cola cola ao pó, não à sola.Aplica cola de contacto em ambas as faces da racha.
Usa um palito para “pintar” o interior. Não encharques: é uma camada uniforme.Espera o tempo certo.
Este é o truque que muita gente falha: cola de contacto precisa de arejar. Espera 5 a 10 minutos (ou o que a embalagem indicar) até ficar pegajosa ao toque, não molhada.Fecha a racha e prensa com força.
Alinha bem as bordas e pressiona. Prende com fita bem esticada (em várias voltas) ou usa molas/sargentos. A pressão é o que transforma a cola em “soldadura” flexível.Deixa curar sem mexer.
Ideal: 12–24 horas sem calçar. Se calçares cedo, a racha “trabalha” e volta a abrir.
Uma racha bem colada deixa de crescer e, em muitos casos, aguenta meses.
O pequeno reforço que faz toda a diferença (quando a racha volta ao mesmo sítio)
Se a racha é exactamente na zona de flexão, há um reforço simples que sapateiros usam como “cinto de segurança”: selar a linha exterior depois da colagem.
Depois de a cola estar curada, aplica por fora uma camada fina de:
- borracha líquida, ou
- massa flexível para solas, ou
- cola de contacto em acabamento (muito fina, só para vedar)
Isto não substitui a colagem interna, mas reduz a entrada de água e diminui a probabilidade de a racha reabrir quando apanhas chuva.
Quando não vale a pena insistir (e o que pedir no sapateiro)
Há sinais claros de que a reparação caseira vai ser curta:
| Sinal | O que significa | Melhor opção |
|---|---|---|
| A sola esfarela ao toque | Material degradado por dentro | Trocar sola/entressola |
| A racha atravessa a sola toda e “abre” a andar | Estrutura já cedeu | Reforço profissional + colagem |
| O sapato mete água mesmo após colar | Falhas internas/vedação | Selagem e revisão no sapateiro |
Se fores ao sapateiro, descreve o problema de forma direta: “racha na zona de flexão, preciso de colagem flexível e, se possível, reforço/vedação”. Leva o par limpo e seco - poupas tempo e aumentas a hipótese de uma colagem perfeita.
Como evitar que volte a acontecer no mesmo par
Não é glamour, mas funciona:
- Alterna sapatos: dar 24 horas de descanso ajuda a sola e a cola a “respirar” (especialmente em dias húmidos).
- Evita secar ao calor direto (aquecedor/sol forte): endurece e acelera fissuras.
- Guarda longe de humidade: algumas solas degradam-se mais depressa quando ficam meses paradas em sítios húmidos.
- Repara cedo: uma microfissura é um trabalho; uma racha aberta é uma cirurgia.
FAQ:
- O que é melhor: supercola ou cola de contacto? Para rachas em zonas de flexão, cola de contacto (neoprene) costuma durar mais porque mantém elasticidade. A supercola pode servir como emergência, mas tende a estalar com o movimento.
- Posso colar e usar no mesmo dia? O ideal é não. Se precisares mesmo, espera pelo menos o tempo indicado na embalagem e tenta dar 6–8 horas de cura, mas a durabilidade vai baixar.
- Funciona em solas de borracha e em solas “plástico”? Em borracha costuma funcionar bem. Em certos “plásticos” (alguns TPU/PU) a aderência varia; lixar e desengordurar é ainda mais importante, e às vezes só um sapateiro consegue garantir.
- A cola de contacto aguenta chuva? Aguenta melhor do que parece, mas a racha é uma porta de entrada. Selar a linha exterior depois de curar ajuda muito.
- Se a sola estiver a esfarelar, ainda dá para salvar? Normalmente não por colagem. Quando o material se desintegra, a solução é substituir a sola/entressola no sapateiro.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário